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Banco de Sementes dos Açores Nuno Rodrigues
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Nuno Rodrigues
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A atividade humana cria oportunidades de colonização e providencia novos meios de dispersão (veículos terrestres, transporte de cargas marítimas e aéreas, introdução de novos fatores bióticos).

Dentro dos diferentes tipos de impactos antrópicos nos habitats e ecossistemas da Terra, destacam-se a introdução de flora (elevada competição das espécies de exóticas invasoras com as espécies nativas) e fauna exótica, a destruição de florestas e matas nativas para outro tipo de uso do solo, como a substituição das florestas naturais por culturas agrícolas, pastagem e floresta (no caso dos Açores, produção de Criptoméria, com o problema do ensombramento associado) e ainda a construção civil (betonização da paisagem), a industrialização, o uso de químicos ou mesmo a falta de informação ou desconhecimento (temos o exemplo dos cantoneiros, nas Flores, que no início do século XX quase dizimam a Veronica dabneyi). Outro assunto que parece ser o resultado intemperado das ações humanas no ambiente é o muito debatido problema do aquecimento global, e consequente subida do nível da água do mar e ulteriores alterações e consequências para a composição florística e faunística das regiões. O que nos leva a colocar as seguintes questões: Para onde poderão “fugir” as espécies, nomeadamente as insulares? Em que locais do globo poderão as espécies encontrar as condições climáticas nas quais se consigam melhor desenvolver e reproduzir?

Estas questões aplicam-se particularmente bem às plantas nativas dos Açores. O nosso arquipélago, bastante isolado no Atlântico e muito longe de qualquer continente, vê esta barreira geográfica tão acentuada dificilmente permitir que as sementes das plantas consigam percorrer, pelos seus próprios meios, longas distâncias até encontrarem novo solo para colonizar, ficando restringidas ao solo açoriano para se dispersarem, germinarem e dar origem a nova descendência. Por exemplo, uma espécie costeira, com o aumento das temperaturas médias do ar, poderá ver-se obrigada a procurar zonas mais altas das ilhas, e assim sucessivamente com espécies características de outros intervalos de altitude. Isto obviamente constitui um problema grave para a distribuição e dispersão da flora, uma vez que a opção de “fuga” em altitude é evidentemente limitada. Por outro lado, o problema associa-se também às espécies de flora invasora. O Homem espalhou tantas plantas pelo mundo, para fora das suas áreas de distribuição geográfica originais, que essas tornaram-se numa parte muito significativa das floras das áreas regionais onde foram inseridas. Felizmente, nem todas se tornaram infestantes. A longo prazo novas plantas irão continuar a invadir os Açores por meios próprios ou transportadas pelo desconhecimento ou negligência humana. Parte das espécies tornar-se-ão “naturalizadas”, crescendo na natureza sem a assistência ou intervenção humana, podendo ou não tornarem-se infestantes. As exóticas de carácter invasor são hoje a segunda maior causa de perda de biodiversidade a seguir à destruição de habitats naturais. Desta forma torna-se premente a necessidade de encontrar novas estratégias de conservação, que integradas com as mais habituais, constituam um reduto seguro para eventuais calamidades ou riscos de extinção. É aqui que entram os bancos de sementes. Depósitos seguros e supervisionados por técnicos, de sementes de espécies selecionadas pelas mais diferentes razões.

O Banco de sementes dos Açores está vocacionado para a conservação de espécies de flora endémica dos Açores, nomeadamente as mais ameaçadas. Assim, desde 2003, ano em que foi criado este banco, que o Jardim Botânico trabalha na conservação e condicionamento de sementes recolhidas em diferentes ilhas do arquipélago. Este plano começou com um projeto Interreg denominado Basemac, que teve continuidade através do projeto Bioclimac, implementado no ano de 2010. Neste momento mais de metade das setenta e cinco espécies endémicas encontram-se guardadas, apresentando viabilidade germinativa. Entre as várias que se encontram conservadas destacam-se duas dadas como extintas ou à beira de extinção, como é o caso da Veronica dabneyi e da Myosotis azorica. A manutenção da viabilidade de sementes de plantas tão delicadas assegura-se através de dois parâmetros: 1) ausência de humidade e 2) temperaturas negativas. Assim, as sementes são acondicionadas em tubos de ensaio com sílica (para absorção de humidade) e guardadas em câmaras de frio apropriadas, com temperatura a rondar os -15 ºC. Como tal, desde 2003 que se têm efetuado sementeiras, com bastante sucesso, de várias espécies, nomeadamente as duas mais raras anteriormente referidas, no Jardim Botânico do Faial. Isto permitiu dar a conhecer tais raridades aos nossos visitantes, enriquecer qualitativa e quantitativamente o nosso banco de sementes e, acima de tudo, dar um forte contributo para a conservação da fitodiversidade singular dos Açores.

Nuno Rodrigues