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Mamíferos terrestres Amélia Fonseca
 
Mamíferos terrestres
Os mamíferos terrestres existentes nos Açores são poucos quando comparado com as outras ilhas da Macaronésia. Continua...

Amélia Fonseca – Bióloga
Professora Auxiliar do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores
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Amélia Fonseca

Bióloga –Professora Auxiliar do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores
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Mónica Silva

Investigadora do IMAR dos Açores
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Os mamíferos terrestres existentes nos Açores são poucos quando comparado com as outras ilhas da Macaronésia. Existem apenas nove espécies de mamíferos terrestres confirmados em estado selvagem no Arquipélago dos Açores. São todos mamíferos de pequeno porte e apenas uma espécie é considerada endémica dos Açores - o Morcego dos Açores - Nyctalus azoreum.

Todos estes mamíferos são originários da Europa e a maioria foi provavelmente introduzida na primeira metade do século XV, após a chegada aos Açores dos primeiros povoadores portugueses.

Estas introduções foram quase sempre acidentais, como aconteceu com a Comandrinha ou Doninha (Mustela nivalis) e com as três espécies de ratos que se encontram por todo arquipélago: o Murganho ou Ratinho (Mus musculus), o Rato-preto (Rattus rattus) e a Ratazana (Rattus norvegicus). Esta última terá sido introduzida mais tarde, já no princípio do século XIX.

Das introduções intencionais, a mais documentada é a introdução do Coelho bravo (Oryctolagus cuniculus), que é considerado um dos mamíferos terrestres mais antigo dos Açores pelo facto de ter sido introduzido na altura do povoamento. O coelho bravo existe em todas as ilhas dos Açores com a exceção do Corvo. É originário da Península Ibérica e foi o único mamífero selvagem introduzido durante a época dos Descobrimentos pelos navegadores portugueses. Devido não ter encontrado grandes obstáculos à sua dispersão, o coelho bravo facilmente colonizou e com grande sucesso todas as ilhas onde foi introduzido. Em consequência da sua rápida proliferação nas ilhas, terá motivado a introdução do Furão (Mustela furo), uns anos mais tarde, na tentativa de controlar naturalmente o crescimento populacional do coelho. Atualmente o coelho é a principal espécie cinegética do arquipélago dos Açores e, dada a sua importância histórica, tem sido alvo de vários estudos ao nível biológico, ecológico e genético. Esta espécie pode ser observada com relativa facilidade ao fim da tarde, durante a noite e ao amanhecer em áreas de floresta ou próximas de pastagens.

A introdução do Ouriço-cacheiro (Erinaceus europeus) nos Açores é das mais recentes e ocorreu, provavelmente, já no início do séc. XX. O Ouriço-cacheiro é um mamífero insetívoro, atualmente utilizado em agricultura biológica na luta contra os inimigos das culturas (caracóis, lesmas, escaravelhos, etc.) em substituição dos pesticidas, reduzindo dessa forma o risco de contaminação ambiental e humana por estas substâncias químicas. Não se sabe se a introdução do Ouriço-cacheiro foi intencional ou acidental.

Em relação aos morcegos, existem duas espécies confirmadas nos Açores (através da identificação acústica e morfológica) que são o Morcego dos Açores (Nyctalus azoreum) e o Morcego da Madeira (Pipistrellus maderensis). Por se tratar de mamíferos voadores, não existe consenso quanto à sua introdução nos Açores. Uma das hipóteses é terem chegado ao arquipélago sem a intervenção do homem e provavelmente antes deste, ou então, por serem espécies originárias do norte da Europa, terem sido introduzidas pelos próprios colonos. Ambas espécies são insetívoras e por esta razão, a sua introdução pelo homem parece ser pouco provável, já que os morcegos insetívoros são incapazes de sobreviver em cativeiro.

O Morcego dos Açores é uma espécie endémica e desde 1990 é considerado uma espécie rara que está isolada em ilhas oceânicas, sendo portanto, uma espécie com grande interesse ao nível biológico, ecológico e de conservação. Esta espécie está classificada no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal como Criticamente em Perigo. O morcego açoriano é observado em todas as ilhas do arquipélago dos Açores, com exceção das ilhas do grupo ocidental (Flores e Corvo). Ao contrário de muitas outras espécies de morcego, o Morcego dos Açores pode ser facilmente observado durante o dia em jardins, parques, florestas, em zonas urbanas perto de áreas arborizadas e durante a noite, quase sempre em redor da iluminação pública.

Para além desta espécie de morcego é também possível encontrar em algumas ilhas açorianas (Santa Maria, São Jorge, Graciosa, Flores e Corvo) o Morcego da Madeira, que é uma espécie endémica da Macaronésia também classificada no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal como Criticamente em Perigo. Esta espécie é normalmente detetada durante a noite em zonas de floresta, principalmente junto a cursos de água, mas também pode ser detetada em zonas urbanas perto da iluminação pública, onde, a maior parte das vezes, é possível visualizá-la. Este tipo de comportamento é facilmente explicado devido há maior disponibilidade de alimento durante a noite em redor da iluminação pública, havendo uma preferência de ambas espécies pela iluminação branca (lâmpadas de mercúrio).

Por confirmar está a existência, nos Açores, de mais duas espécies morcegos referidas por alguns autores: Myotis myotis (Morcego-cavernícola) e o Pipistrllus pipistrellus (Morcego-anão). Estas espécies nunca foram detetadas através de identificação acústica e/ou morfológica, não havendo por isso certeza quanto à sua existência no arquipélago.

Todas as espécies de mamíferos terrestres dos Açores, com exceção dos morcegos, têm, desde de 1990, o estatuto de espécies não ameaçadas, embora muito pouco se conheça ainda sobre a evolução biológica de algumas destas espécies desde a sua introdução no arquipélago.

Amélia Fonseca – Bióloga
Professora Auxiliar do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores