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Jardim Duque da Terceira Paulo J. M. Barcelos
ILHA TERCEIRA
 
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O crescimento urbano, a partir do século XIX, traz-nos a noção de jardim público e de espaço verde. Continua...
Paulo J. M. Barcelos
Técnico Superior da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
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Técnico Superior da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
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O crescimento urbano, a partir do século XIX, traz-nos a noção de jardim público e de espaço verde. Desenvolvem-se no concelho os chamados Passeios públicos. Estes passeios são muitas vezes o local onde se organizavam eventos ou se assistia a acontecimentos regulares, aproveitando as damas e cavalheiros para alguma ostentação social. Angra não foge à regra.
A Câmara Municipal de Angra do Heroísmo adquire em 1864 o domínio útil do denominado “Sítio Fagundes” e acabaria mais tarde por comprar este prédio de 16 335 m2 (inscrito em 1872 na Conservatória do Registo Predial), com intuito de ali estabelecer, de forma faseada, um Passeio Público.
A área compreendia as antigas cercas do Colégio de Jesus (“Jardim de Baixo”) e do Convento de S. Francisco (“Bosques” e “Jardim de cima”). Entretanto o Conselho Agrícola distrital toma o terreno por arrendamento à Autarquia e ali estabelece a sua quinta experimental, que divide o espaço do Jardim de Baixo em cinco secções: floricultura, fruticultura, horticultura, grande cultura e viticultura. No início de 1882 é o próprio Governador Civil do Distrito, Afonso de Castro, que lembra a câmara municipal da necessidade de ser construído o já falado passeio público. Seis meses volvidos já a Câmara tinha ali pessoal destacado com vista a esse fim. Finalmente por deliberação de 18 de Janeiro de 1888 este local de experimentação e de aclimatização de culturas, passa a denominar-se “Passeio Duque da Terceira, ficando Angra com um recanto fascinante e estrategicamente situado no coração da cidade, onde não chegam os rumores trepidantes da vizinha Praça Velha.

Este Jardim Duque da Terceira, um dos mais belos jardins clássicos dos Açores, com duas entradas a partir do centro da urbe, torna-se facilmente acessível para as muitas dezenas de pessoas que o visitam diariamente, seja para apreciar e usufruir da beleza e tranquilidade deste espaço, para conseguir mais alguns conhecimentos sobre a biodiversidade do local, para os pais que trazem os filhos para se divertirem no parque infantil e a dar pipocas aos pombos, para assistirem à realização de eventos, ou ainda aqueles que utilizam o jardim como forma de atalhar caminho na sua descida para a cidade.

Desde o início da sua construção, em finais de 1882, foram várias as conceções estéticas implementadas neste jardim. Originalmente coube ao agrónomo belga Francisco José Gabriel, que se radicou em Angra, constituiu família e morreu, desenhar a zona do “Jardim de Baixo” e chefiar nos primeiros anos o andamento dos trabalhos. Fê-lo no estilo francês (género Lenôtre) onde caminhos cuidadosamente delineados realçam a simetria conferida pelos tapetes relvados, sobre os quais estão montados alguns canteiros sazonais e se alinham e emparelham árvores e arbustos. A repetição de elementos vivos, como as roseiras, os corpos de água geometricamente dispostos, as podas de topiaria ou que impõe de forma drástica uma forma às árvores e arbustos, são outras características deste estilo presentes neste jardim.

Quem cruza a principal entrada no jardim, e avança pelos belos passeios calcetados, planos e serpenteantes, com reproduções iconográficas que nos dão a conhecer melhor vultos que contribuíram para fazer a história desta ilha, é incontornável não reparar no pequeno lago que lhe está em frente. Um gradeamento, com objetivo de varandim, composto de silhuetas aladas de uma estereotipada borboleta, delimita a elipse onde se encontra este lago, qual trevo de 5 folhas, marginado por uns tapetes relvados em que crescem alguns fetos arbóreos. No seu interior nadam livremente carpas e caracios, de formas e cores variadas.

Se por um lado as condições climatéricas específicas dos Açores permitiram uma fácil adaptação das espécies ornamentais introduzidas, também é verdade que ao longo dos anos alguns temporais produziram efeitos devastadores sobre o jardim. Ainda assim conseguem-se agora observar no Jardim Duque da Terceira uma grande variedade de espécies botânicas, de origens nórdicas ou tropicais, sendo de facto (como alguém já antes o designou) uma Estufa ao ar livre.
O valor do património vegetal deste jardim, além da significativa diversidade que possui (com cerca de 180 diferentes espécies arbustivas e arbóreas), conta também com algumas árvores centenárias que terão assistido à inauguração do jardim e que o viram crescer à sua volta, como as araucárias (Araucaria heterophylla) de grande porte que aqui existem.
Destacam-se também pelo seu grande porte: os tulipeiros (Liriodendron tulipifera), metrosideros (Metrosideros excelsa), um raro eucalipto-limão (Eucalyptus citriodora) muito procurado pelas suas folhas medicinais e uma portentosa sumaúma de flores cor-de-rosa (Chorisia speciosa).
Um endémico e bem conformado dragoeiro (Dracaena draco) exibe nas suas cicatrizes uma seiva vermelho vivo, matéria comercializada na Europa com o nome de sanguis draconis (ou sangue-de-dragão). Esta relíquia, utilizada em fármacos e em tinturaria, partilha o jardim com cicas, zamias e várias agavaceas de climas mais áridos.
Outros destaques deste jardim são: cerca de uma dezena de diferentes palmeiras, grandes magnólias brancas (Magnolia grandiflora) e roxas (Magnolia soulangeana), uma Ginkgo biloba (espécie com origem pré-histórica), uma canforeira (Cinnamomum camphora), um vinhático (Persea indica) e algumas tropicais, como o cafezeiro (Coffea arabica) e as pálidas estrelícias augustas (Strelitzia nicolai) e algumas pérgulas de glicínias e buganvílias.
Os canteiros de plantas anuais distribuem-se pela maior parte do jardim, onde uma sucessão de espécies ajudam a manter colorido este espaço durante todo o ano. Tufos brancos de malmequeres, ou torrões-de-açúcar, rosas e mais rosas, as sardinheiras de escarlate vivo e esbatido, dálias e majestosos gladíolos, impõem a sua presença nos canteiros, bordejados pelos tapetes verdes.

Em diferentes níveis do Jardim, adornam os recantos uma série de pequenos espelhos de água, a que se chamam laguinhos. A água que é lançada, ou que escorre em sobressalto na superfície das pedras de bagacina, vem a transbordar de uns para os outros, do Tanque do Preto até ao Jardim de Baixo.

Como que compensando a falta das habituais grutas artificiais, típicas dos jardins portugueses da época, ergue-se um Caramachão, de inegável valor histórico, tornando-se desde logo no local de descanso de alguns visitantes e de refúgio da chuva quando inesperadamente aparece. No seu interior cai uma cascata de água por entre um enrocamento de pedras de obsidiana.

Decidiu a Câmara instalar no centro da Praça Velha um fontenário em mármore. A fonte foi inaugurada no dia de Natal de 1877, estando neste local apenas por espaço de 4 meses (até Abril de 1879), altura em que a nova administração camarária decidiu retirar o fontenário e oferecê-lo ao Conselho de Agricultura para a sua estação experimental, destinado a decorar aquele recinto onde seria instalado o futuro passeio público (actual jardim). Em Julho de 1882 ainda estaria desmontado. Antes de se fixar onde se encontra, esta fonte ainda esteve situada no Jardim de Cima no local onde está o busto do Dr. Manuel António Lino. Mais tarde foi colocada a Sul do Jardim de Baixo. Tornou-se popularmente conhecida como “Babão”, devido ao movimento lento da água, ao sair do topo, como que de um feto arbóreo, vertendo pelos 2 pratos superiores, um após outro, até cair no tanque circular da base.

No centro do Jardim de Baixo permanece o Coreto, simples mas de airosa arquitetura. Terá sido inaugurado no Domingo de Páscoa de 1887. De então para cá diversos eventos culturais e muitas e variadas melodias terão ecoado durante mais de um século, das Bandas filarmónicas e de outros grupos, populares e etnográficos.

No lado oposto à entrada principal está uma Glorieta em bronze e pedra, descerrada a 30 de Novembro de 1954, em evocação a Almeida Garrett, autor mais representativo do Romantismo em Portugal, viveu nesta ilha parte da sua atribulada mocidade, entre os 9 e os 17 anos. Foi no entanto enquanto figura de vulto da Revolução Liberal, e enquanto Deputado pela Terceira no reino, que redigiu o decreto de 12 de Janeiro de 1837, assinado por D. Maria II, a partir do qual Angra se passou a denominar “do Heroísmo”, acrescentando ao título de “Muito Nobre e Leal” o de “sempre constante”, e tendo pendente a insígnia da Grã-Cruz da Antiga e Mui Nobre Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Por solicitação de um particular autorizou a Câmara Municipal a 6 de Setembro de 1928, a construção de um Quiosque no jardim, num local denominado bosque, onde ainda hoje se encontra. Servia para venda de doces, bebidas e géneros semelhantes.

Junto à Ladeira de S. Francisco está encaixado um espaço, abaixo do Jardim de Cima, que seria ocupado pelos franciscanos, talvez não como horta mas como um espaço ajardinado… pela sua localização sobranceira ao caminho, pelas características dos muros e banquetas que o ladeiam e pelo conjunto de 4 painéis de azulejos com que nos deparamos. De fabrico lisboeta, datam de cerca de 1740, bastante anterior à existência do próprio Jardim. Estes painéis narram momentos da parábola bíblica do “Filho Pródigo”. Apresentam acrescido interesse pela figuração de ambientes rústicos e cenas domésticas.

Também no Jardim de Cima foi descerrado a 16 de Outubro de 1949 um busto em mármore, que invoca a memória e homenageia a obra da grande intelectualidade terceirense que foi o Dr. Manuel António Lino. Nascido a 4 de Janeiro de 1865 nesta cidade, para além do talento de médico erudito juntava-lhe o de floricultor exímio, poeta, jornalista, dramaturgo consagrado e autor musical, entre outros singulares predicados que o distinguiam. Que melhor refúgio para homenagear a memória de um enamorado das letras e das plantas?

Nos “bosques”, resquícios da maravilhosa mata que aqui existia, de que restam poucos exemplares arbóreos, prevaleceu um mosaico de espécies ao estilo inglês que, sem ser Parque, mantém um certo romantismo e permite à natureza aparecer um pouco mais selvagem, crescendo de forma mais livre.

No início da Passagem Silva Sarmento encontra-se um tanque retangular, de dimensões apreciáveis. Num dos topos, a Estátua do Preto, que ostenta um cocar de índio brasileiro por adorno na cabeça, revela-se como uma curiosa escultura e um magnífico chafariz. Por um tubo sopra um abundante jorro de água que se despenha num estraçalhado cilindro de cristal enquanto reflete aos raios de sol que caem por entre as folhas das frondosas tílias. De data incerta (?) este antigo tanque tinha por função represar as águas destinadas a regar as hortas da cerca dos Franciscanos, e talvez, quem sabe, este edílico local permitisse aos Irmãos a tranquilidade e meditação que ainda hoje proporciona.

A 3 de Março de 1845, treze anos após o desembarque nesta ilha de D. Pedro IV, foi assente a primeira pedra de um monumento que pretendia perpetuar esse momento, mas também lembrar às gerações vindouras a sua passagem pela Terceira, onde organizou o exército que libertou Portugal do jugo de D. Miguel. Foi erigido no local do antigo castelo dos Moinhos, por ficar sobranceiro à cidade e à baia de Angra, sendo terminado em Junho de 1856. A “Memória”, como é conhecida esta pirâmide quadrangular em pedra, passou a integrar o Jardim Duque da Terceira, após ter sido estabelecida uma ligação, ao longo da encosta, denominada Passagem Silva Sarmento, o que aumentou a área total do jardim para os atuais 17500 m2. Acompanha esta elegante e bem delineada escadaria uma serpenteante alameda de frondosos plátanos, que ladeiam, ensombram e refrescam todos os que a sobem e que gradualmente se elevam sobre a cidade, até este admirável miradouro de horizontes dilatados e panorâmicas deslumbrantes, verdadeiro ex-libris de Angra do Heroísmo, onde o jardim acaba…. ou começa.

Paulo J. M. Barcelos
Técnico Superior da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo