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A erupção submarina da Serreta no seu 150º aniversário
Paulo J. M. Barcelos, Associação Os Montanheiros
 
Em 1867, no extremo poente da ilha Terceira, nascia no mar, ao largo das freguesias da Serreta e do Raminho, um vulcão que ficou na história da vulcanologia mundial pelas análises pioneiras dos seus gases.
A 31 de maio desse ano, aquando do início da erupção, as gentes daquelas paragens recorreram à fé para fazer parar as forças da natureza.
150 anos depois, permanece a Procissão dos Abalos que nasceu com este vulcão.
A erupção submarina da Serreta no seu 150º aniversário
A erupção submarina da Serreta no seu 150º aniversário PDF
Paulo J. M. Barcelos, Associação Os Montanheiros. Publicado na revista Pingo de Lava n.º 41, 2017
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Das erupções submarinas que terão ocorrido ao largo da Serreta, provavelmente recorrentes antes do povoamento da ilha, apenas as duas mais recentes (históricas), de 1867 e de 1998, estão documentadas.
Faz este ano 150 anos sobre a data em que ocorreu a primeira dessas erupções. A assinalar a efeméride, ficam aqui alguns relatos e apontamentos sobre esse acontecimento que marcou a vida de muitas centenas de pessoas na ilha Terceira, de uma forma especial os moradores na zona oeste da ilha.



São vários os registos escritos que podemos consultar sobre esta erupção vulcânica. Referem, por exemplo, o evoluir da crise sísmica que precedeu o evento, o início da erupção a 1 de junho de 1867, o apoio social que foi prestado à população e algumas expedições ao local realizadas nos meses seguintes. Além das frequentes notícias do jornal “O Angrense”, é de particular importância alguns documentos, escritos por quem presenciou os acontecimentos. Referimo-nos concretamente à carta enviada a 6 de junho por António de Gouveia Osório, Governador Civil de Angra, ao seu congénere da Horta, e ao relatório oficial enviado ao Governo por Afonso Joaquim Nogueira Soares, Diretor das Obras Públicas da Terceira, que constitui sem qualquer dúvida, este último, a melhor descrição conhecida desta erupção.
Igualmente importantes são os relatos do geólogo Charles Joseph Sainte-Claire Deville 1, que visitou a ilha Terceira em agosto de 1867, e do seu colega Ferdinand André Fouqué que chegou no mês seguinte 2. Foram os seus textos, publicados em revistas científicas e apresentados em comunicações na Academia das Ciências de Paris, que deram notoriedade à erupção vulcânica da Serreta, tornando-a conhecida e falada além-fronteiras.
Não tendo presenciado à crise sísmica ou à erupção vulcânica, estes dois cientistas relatam os acontecimentos com base em fontes orais e escritas a que tiveram acesso. É o caso das conversas que Deville estabeleceu com o pároco da Serreta, Pe. João Guilherme da Costa, que estava “colocado melhor do que ninguém para observar de noite e de dia, as diversas fases do fenómeno” 3 e que, de terra, terá procedido ao registo de alguns dos momentos mais marcantes da atividade sismo-vulcânica desta erupção.
Fica aqui uma cronologia da evolução desta manifestação natural e de alguns dos seus protagonistas.



24 DEZ 1866
INÍCIO DA ATIVIDADE SÍSMICA
Apesar do início da atividade sísmica contar já com alguns meses, o primeiro registo surge apenas a 31 de maio de 1867, num suplemento do jornal O Angrense, onde são descritos os acontecimentos e a destruição ocorrida até àquela data.
No relatório de Afonso Soares é referido que, por volta das 22:00 horas do dia 24 de dezembro de 1866, se sentiram dois pequenos abalos, seguidos de outros quatro a 2 de janeiro de 1867, e daí até 15 de março entre quatro a dez sismos todos os dias. O Angrense, no entanto, diverge um pouco quanto a essas datas: “Desde 2 de janeiro deste ano que se começaram a sentir nas freguesias dos Milagres [i.e. Serreta] e Raminho algumas comoções vulcânicas que duraram quase sucessivamente até 6 de março, dia em que suspenderam.” 4
Depois de um período sem sismos de cerca de um mês, voltaram a sentir-se nos dias 18 e 21 de abril abalos fracos e, nos dias seguintes, entre oito a doze abalos por dia, aumentando depois a frequência e intensidade, contando-se cerca de cinquenta e sete entre as 17:30 e as 24:00 horas do dia 25 de maio. Essa “oscilação constante do solo, ímpetos veementíssimos precedidos de assustadores estampidos subterrâneos, tem sido o estado habitual daquelas infelizes povoações […], mantendo-se de 25 de maio a 1 de junho “o solo da Serreta e das paróquias vizinhas […] numa agitação contínua”, sendo facilmente sentidos na cidade de Angra. 5
Quanto à destruição causada, os relatos são semelhantes, mas não coincidentes. Diz Afonso Soares que os abalos se sentiram pouco noutras localidades, mas que na Serreta e Raminho (outros indicam ainda as Doze Ribeiras) alguns foram muito violentos abrindo fendas no solo e fazendo cair grandes pedras das vertentes, em especial o abalo do dia 31 de maio. Quase todos os edifícios foram danificados ou inteiramente arruinados fazendo com que os habitantes, receosos, não se atrevessem a entrar nas habitações para dormir, pernoitando em “cafuas feitas de palha e de ramagens de árvores”. Diz O Angrense: “À noite, abandonando as habitações que ameaçam ruína e que vacilam constantemente, vão os mais necessitados implorar um canto das poucas barracas que se tem feito e assim divagam soltando preces de aflição, queixumes amargos, enquanto que mão poderosa parece querer parcela desta montanha…. Não há edifício, não há casa, não há choupana naquelas freguesias que não estejam arruinadas e em perigoso estado. Não há um momento que a terra não trema e que dos lábios do grande e do pequeno se não solte a palavra misericórdia. O terror divisa-se no semblante de todos […]. No dia 29 do corrente […] o exmo. Conde da Praia da Vitória e seus exmos. filhos os srs. Visconde de Bruges e Teotónio Simão Paim de Ornelas Bruges, foram visitar os desditosos povos da freguesia da Serreta […] distribuindo algumas esmolas valiosas de pão e dinheiro, para os mais necessitados, mandaram a expensas suas construir uma barraca que poderá alojar acima de 120 pessoas das menos abastadas, a quem ss. exas. a destinaram. Consta-nos também que no mesmo dia, e por ordem do sr. governador civil, o administrador do concelho fora de tarde à Serreta para indagar o que ali fosse preciso e em resultado ainda nos consta que pelo governo civil se mandara fazer uma outra barraca […]. Também não podemos deixar de chamar a atenção do prelado diocesano sobre a necessidade de fazer-se construir uma barraca para recolher o sacrário e imagens, evitando-se assim qualquer desastre na igreja paroquial que se acha já arruinada e facilitando-se aos povos o poderem mesmo no campo implorar o auxílio divino de que tanto carecem.” 6



Mais tarde é o Pe. João Guilherme da Costa, pároco da Serreta, que avalia em oitenta o número de casas destruídas nessa paróquia, tendo todas as outras sido abaladas, tal como a igreja e o presbitério que teriam de ser reconstruídos. Apesar dos estragos materiais não se registaram vítimas mortais nesta crise sísmica, numa altura em que na freguesia da Serreta residiam cerca de duzentas famílias. Também em O Angrense é referido que: “Não podemos deixar de nesta ocasião louvar e recomendar às autoridades competentes o zelo e caridade do digno pároco da freguesia da Serreta o rev. João Guilherme da Costa, desenvolvido nesta assustadora crise, não se poupando a esforços, a despesas e a incómodos, já animando com a sua resignação e com seus conselhos, já esmolando e socorrendo os mais necessitados dos seus fregueses. 7
Numa avaliação premonitória, de que algo mais grave estaria ainda para acontecer, diz o articulista de O Angrense: “Que o cataclismo há de suceder, a uma série não interrompida de fenómenos que se tem dado, é para nós de fé. Agora, se ele se contentará em não deixar pedra sobre pedra, ou se arrastará ao seu sorvedouro aquele infeliz solo, não o sabemos […]. 8

31 MAI 1867
PROCISSÃO DOS ABALOS
São várias as histórias nos Açores em que a população, estando a sofrer as consequências de uma catástrofe natural, realiza uma manifestação de fé, geralmente uma procissão, que acaba precedendo num curto espaço de tempo à alteração aos acontecimentos, fazendo baixar o risco do perigo. A Procissão dos Abalos enquadra-se nesse contexto, mas, há falta de evidências de como terá tido efetivamente o seu início.
Diz a tradição que a 31 de maio de 1867 a população, aterrorizada com os tremores incessantes e destruidores, terá organizado uma procissão, em que foram transportadas as coroas do Divino Espírito Santo dos Altares até ao Raminho, incorporando-se aqui as desta localidade. Idêntica procissão foi organizada na freguesia das Doze Ribeiras e Serreta, convergindo ambos os cortejos para o Cabo do Raminho, onde se organizou uma missa campal, no local onde hoje está erguido um cruzeiro a assinalar o acontecimento. A ser assim, não há lugar à mistificada ideia de que com a Procissão dos Abalos os sismos tenham cessado, uma vez que, no dia seguinte, pelas 8 horas da manhã, sentiu-se um tremor de terra muito violento seguido por outros mais fracos ao longo do dia, que danificaram os muros de pedra e os poucos edifícios que ainda se mantinham intactos. Mesmo durante o mês de junho, antes e depois da erupção ser visível, ocorreram sismos. 9



Teria ainda sido uma grande coincidência que, poucas horas depois de realizada a procissão, tivesse rebentado um vulcão no mar, precisamente ao largo do local onde foi rezada a missa.
Nas notas que monsenhor José Alves da Silva introduz, em 1891, à 2ª edição da obra de Jerónimo Emiliano de Andrade, vem o seguinte: “Em 1867 depois de um mês de contínuos abalos subterrâneos que puseram em consternação toda esta ilha em geral, e em especial a Serreta, o Raminho e as freguesias circunvizinhas, rebentou afinal o vulcão no mar em frente da dita Ponta do Queimado, no dia 12 de junho, formando um pequeno ilhéu que depois desapareceu. Foram assombrosas de majestade e horror as cenas que então se ostentavam. O vulcão furioso arremessava do seio das revoltosas ondas do mar penhascos enormíssimos que subiam a uma grande altura. Os povos daquelas freguesias, vendo rolar continuamente enormes pedras dos montes próximos, assistindo ao desmoronar das suas habitações e ao abrir de grandes fendas no solo que pisavam, transidos de medo não atinavam senão com invocar a Infinita Misericórdia de Deus, e em boa hora o fizeram porque só com Deus é que se houveram.
Num dia em que acompanhando a devota Imagem do Senhor Jesus dos Passos dos Altares imenso povo, precedido pelo seu pároco, se foi meter mesmo no coração do perigo, sobre a rocha do Peneireiro, sentindo repetir-se amiudada e violentamente os abalos, retiraram-se apressadamente pelo perigoso caminho que tinha sobranceiro enormes penhascos prestes a precipitar-se. Pois só depois de todo o povo ter passado é que esses penhascos se despenharam com grande estrondo e horror, clamando assim bem alto que só a Misericórdia Infinita de Deus, com tantas lágrimas invocado, é que livrou aquele aflito povo do iminente perigo em que esteve.”
10
Devemos atender aos seguintes factos: Monsenhor José Alves da Silva embora fosse natural de Angra, à data da erupção tinha cerca de 17 anos, estando no Seminário, e que se tornou pároco dos Altares em 1879, portanto 12 anos após a erupção, mantendo-se até 1901.
Não sendo possível à população, naquele tempo, saber qual o epicentro dos sismos, que ocorriam já há seis meses, como é que se justifica que, antes da erupção rebentar, a população dos Altares e das Doze Ribeiras convergissem exatamente para a ponta da Serreta, que se veio a revelar o local mais próximo em terra da erupção? Por outro lado, diz-nos Mons. Alves da Silva, que ocorreu efetivamente uma procissão com a imagem do Senhor dos Passos, não fazendo referência a quaisquer coroas do Espírito Santo, e apenas com o povo dos Altares e, depreende-se, já com a erupção a decorrer.
Quase 30 anos depois, em 1894, encontramos outra notícia sobre esta procissão que refere o seguinte: “No dia 30 de maio, aniversário dos abalos de 1868 houve na freguesia da Serreta procissão comemorativa com sermão pelo Revmo. cura das Doze Ribeiras Sr. Francisco Ignacio da Silva.” 11 Como se percebe, o autor da notícia parece ter-se enganado no ano dos abalos e não deixa qualquer indicação de quando terão começado as procissões. Fica também a dúvida quanto ao dia 30 de maio, uma quarta-feira, uma vez que a procissão foi-se repetindo nos anos seguintes, com alguns períodos de interrupção, quase sempre no mesmo dia 31 de maio, tendo, no entanto, registado já pequenos “ajustes” quanto ao dia e quanto à hora em que ocorre.
Hoje a procissão faz-se cantando as ladainhas, talvez como terá sido feita da primeira vez, realizando-se no trajeto: da igreja do Raminho ao Cabo do Raminho, junto de um cruzeiro no Biscoito da Fajã.
Uma pesquisa mais aturada nos assentos das paróquias envolvidas nesta tradição talvez permita encontrar indicações mais precisas sobre o início desta procissão.



1 a 7 JUN 1867
ERUPÇÃO VULCÂNICA DA SERRETA
Para além das observações feitas pelo Pe. João Guilherme da Costa, relatadas a Deville e que este publicou, constituem os documentos mais preciosos referente a esta erupção, e que só por si preencheriam de forma satisfatória este capítulo, as descrições pormenorizadas feita por Afonso Joaquim Nogueira Soares, à época Diretor das Obras Públicas na ilha Terceira, e por António de Gouveia Osório, Governador Civil de Angra testemunha ocular dos acontecimentos e que aqui transcrevemos.
Relatório de Nogueira Sampaio: “Ao anoitecer do dia primeiro de junho ouviram algumas pessoas oito detonações sucessivas, semelhantes às de artilharia, e no dia seguinte, logo pela manhã, descobriram-se sobre o mar os sinais da erupção. Apareceu uma extensa faixa com uma cor diferente da água do mar, e quando o horizonte se tornou mais claro pela dissipação do nevoeiro, viam-se elevar, com impetuosidade, do mar grandes colunas de água e vapor, e ao lado a água fervendo em cachão, e ouviam-se repetidas detonações também semelhantes às da artilharia.
Nos dias seguintes o fenómeno observado da Serreta oferecia variadas vistas. Umas vezes viam-se enormes jactos de água, e vapor espesso e branco como a neve, elevando-se a pequena altura; outras vezes apareciam grandes colunas saindo do mar verticalmente, e depois elevando-se no mesmo sentido como fumo denso, ou seguindo a direção dos ventos na ocasião. Era muito variável o número e forma dos jactos de vapor e gases, e às vezes viam-se surgir do mar grandes balões de fumo branco e denso a distância considerável da localidade em que a ação vulcânica parecia estar concentrada, mas estas explosões eram passageiras. Distingui uma vez com uma luneta, entre as massas brancas de vapor, vultos negros que desapareciam e tornavam a aparecer rapidamente, e que logo supos serem grandes pedras vomitadas pela cratera.
No dia 5 deste mês fui observar o fenómeno de perto em um barco com o Intendente de marinha e mais algumas pessoas. A distância de mais de 10 milhas da erupção já a água tinha cores diferentes, verde ou vermelho carregado, devido talvez à presença dos sais de ferro. Ao passo que se avançava para a localidade do vulcão sentia-se cada vez mais pronunciado o cheiro do enxofre. Grande número de peixes flutuavam mortos ou moribundos à superfície da água. Aproximámo-nos a pouco mais de 1 milha de uma parte da zona em que as forças vulcânicas estavam em atividade. O espetáculo era então verdadeiramente surpreendente. Numa linha de mais de 2 milhas com a direção aproximada de L. O. Surgiram com impetuosidade, e a bastante distância entre si, seis enormes colunas de vapor, que a uma certa altura acima da superfície do mar cediam à pressão do vento e deslizavam na atmosfera seguindo a sua direção como fumo branco e espesso. No pé de uma das maiores colunas via-se continuamente projectarem-se a alguns metros acima da superfície do mar, caindo imediatamente, grandes e numerosos blocos negros. Este terrível jogo da natureza era acompanhado de repetidas detonações semelhantes às da artilharia. Na extremidade a O., de que estávamos mais aproximados e em que as explosões de vapor e gases não eram continuadas, pareceu-nos pelo murmúrio e rolo do mar, semelhante ao que há sobre as restingas, e pela cor diferente que a água tinha, que a acumulação das dejeções vulcânicas estava ali perto da superfície do mar.
No dia 8 deste mês voltei à Serreta, levando os instrumentos para determinar com mais exatidão a posição do vulcão em relação à ilha, e acompanhou-me o arquitecto, servindo como desenhador nesta Direção [de Obras Públicas], para fazer os desenhos em perspetiva das erupções. Quando porém lá chegámos já elas tinham cessado, e diziam os habitantes da localidade que de manhã cedo ainda se tinham visto. Desde então até agora nunca mais se viram de terra sinais bem definidos de estar em atividade o vulcão. Sentiram-se na Serreta alguns tremores até o dia 13, mas pouco violentos.




No dia 17 fui outra vez em um barco com o Intendente e mais algumas pessoas examinar aquela localidade, e não descobrimos vestígios, nem pela cor da água que já era a natural, nem por qualquer indício, da revolução submarina que ali tinha havido, conservando-se em plena atividade desde a noite do dia 1 deste mês até à manhã do dia 8; fizeram-se algumas sondas, mas não se achou fundo. Se pois, como tínhamos suposto quando observámos a erupção em atividade, a aglomeração das dejeções vulcânicas chegassem perto da superfície da água, deviam já ter sido varridas pelo mar como quase sempre acontece. Não se sabe que profundidade o mar teria aí antes, mas é provável que fosse muito grande, porque fora de um baixio que existe perto da Serreta, há nas cartas inglesas de Vidal sondas superiores a 200 braças, e é provável que na localidade do vulcão, mais ao largo, fosse muito maior a profundidade.”12
Carta de António de Gouveia Osório: “Tendo havido na noite de um para dois do corrente ao N. mg. da freguesia da Serreta desta ilha, uma erupção vulcânica que se conserva em actividade e que ocupa uma zona de mais de duas milhas e meia, na direção oeste leste, cumpre-me levar este facto ao conhecimento de vossa excelência afim de que por todos os meios ao seu alcance, o faça chegar ao conhecimento dos navegantes, que se dirijam para estas paragens.
Depois de fortes abalos de terra, que produziram graves prejuízos em algumas freguesias desta ilha rompeu o mencionado vulcão ao N.O. mg da Serreta a distância de nove milhas de terra, ocupando o seu principal foco de actividade uma extensão de mais de duas milhas e meia, na direção oeste leste. Tendo sido observado por pessoas competentes, conheceu-se que a sua lat. N é de 38 grau, 52’, e a sua long. O. G. é de 27 graus 52’, e que está na linha recta desta ilha com a Graciosa.
Além disto observou-se também, que está expelindo constantemente enormes porções de lava, a qual, pela sua acumulação pode formar um novo ilhéu, que será um eminente perigo para os navegantes, se dele se não acautelarem; que em diferentes pontos aparecem alguns jorros de vapor e de água em ebulição, e que à distância se sente um pronunciadíssimo cheiro de enxofre, que pode produzir a asfixia a quem se aproximar do vulcão.
É, pois, para evitar algum sinistro, que peço a V. Exª se digne fazer público este acontecimento, levando-o também ao conhecimento dos nossos cônsules nos diferentes países, para onde porventura saiam alguns navios desse porto, visto serem daí mais diretas e frequentes as relações do que as desta ilha.
[…]” 13



É, no entanto, um artigo no jornal O Angrense, assinado por um “serreteiro”, ao segundo dia da erupção, o primeiro relato deste acontecimento. Deste artigo, mais vasto, consta: “Serreta, freguesia de N. S. dos Milagres, 3 de junho de 1867 […] No mar entre as ilhas de S. Jorge, Graciosa e esta, rebentou um vulcão, na noite de 1 para 2 do corrente. O mar naquele sitio deixa ver uma sombra imensa, que dá bem a entender que ali existe já formado um baixio, que pode vir a ser uma ilha; tem-se sentido grandes detonações submarinas, que procedem a aparição de grandes moledos e repuxos d’água que se elevam a grande altura. Estas detonações e movimentos de água e fogo tem ido em diminuição, o que faz crer que a explosão vai em decadência.” 14
Há algumas divergências ligeiras, mas, do cruzamento da informação disponível, parece seguro admitir que a erupção terá começado na noite do dia 1 de junho. Quanto ao final da atividade eruptiva, já não me parece correto dizer que terminou no dia 7 de junho, como quase todos os autores referem, porque, de acordo com a descrição acima de Nogueira Soares, ainda na manhã do dia 8 havia atividade vulcânica. Há ainda o registo, já referido, de Mons. Alves da Silva: “rebentou afinal o vulcão no mar em frente da dita Ponta do Queimado, no dia 12 de junho, formando um pequeno ilhéu que depois desapareceu”. O dia “12” deverá ser confusão ou engano tipográfico, querendo provavelmente o autor referir o dia “2”, pois só nessa manhã, depois do nascer do sol, é que a população conseguiu observar o fenómeno.
Já Fouqué refere outra data: “Na noite de 1 para 2 de junho ouvem-se várias explosões, cessando os tremores de terra. Nessa manhã, por volta do meio dia, inicia-se a erupção vulcânica... [...]” 15 Portanto, separa as explosões com projeção de gases e vapor de água na atmosfera, da “erupção vulcânica”, que imaginamos para ele pudesse ser a projeção de materiais sólidos, de maiores dimensões, para a superfície.
Quanto à localização, de uma forma geral todos os autores “colocam” a erupção no mesmo alinhamento, da Ponta do Queimado para a Baixa da Serreta, mas a distâncias diferentes. Nogueira Sampaio não pormenoriza qualquer localização, enquanto que António Osório, mesmo tendo em conta a declinação magnética, dá-nos umas coordenadas que colocam o foco eruptivo muito mais próximo da Graciosa do que da ilha Terceira, a mais do dobro das 9 milhas que refere. Fouqué, por sua vez, acreditava estar o centro eruptivo, no máximo, a uma distância de quatro ou cinco milhas da costa. 16
Ainda quanto à formação de um ilhéu, se para alguns era uma preocupação, noutros casos é referida como tendo acontecido. É o caso de Mons. Alves da Silva, que não é, no entanto, o único a referir tal ocorrência. Mas, no dia 7 de junho (ou 8) cessava a emissão de materiais sólidos pela erupção, sem que tivesse ocorrido qualquer fase subaérea do mesmo.



20 SET 1867
VINDA DE FERDINAND ANDRÉ FOUQUÉ À TERCEIRA
Ferdinand Fouqué 17 decide visitar os Açores, pela primeira vez, após receber a notícia de que estava a acontecer uma erupção submarina ao largo da ilha Terceira, e fá-lo cerca de um mês depois do seu mentor Charles Sainte-Claire Deville ter cá estado. Quando chega à ilha Terceira, a 20 setembro de 1867, é-lhe dito que a erupção havia terminado.
Permanece, no entanto, cerca de um mês na ilha Terceira onde recolhe informação diversificada sobre a mesma. Viaja até ao Faial, onde já se encontrava a 24 de outubro, passando também cerca de um mês nesta ilha e no Pico. Segue depois para São Miguel onde também fica vários dias, encontrando-se já em Lisboa a 20 de dezembro, no regresso a França. É possível balizar o seu périplo pelos Açores com base num conjunto de cartas que foi escrevendo ao geólogo Charles Joseph Sainte-Claire Deville e de outros textos mais alongados, num total de 9 documentos publicados sobre os Açores.
No dia 21 fez uma expedição ao longo da costa sudoeste da ilha, observando a geologia local e recolhendo diversas amostras geológicas. Nesse mesmo dia embarcou em Angra à meia-noite. Pelas 2 horas e 45 minutos desse dia 22 de setembro, ia Fouqué a navegar em direção à Serreta, ocorre um violento abalo de terra “o qual felizmente não consta ter causado estragos” 18 Fouqué não o terá sentido (não o refere) pelo facto de estar no mar.
Às 7 da manhã chegou ao local, onde ocorrera a erupção de acordo com as indicações que possuía, a cerca de 5 km da costa, onde um mapa inglês assinalava 165 braças de profundidade (c. 300 m). Fouqué tirou novas medidas de profundidade, obtendo 205 braças (c. 375 m), concluindo que esta última erupção teria elevado o fundo do mar. Terá sido a extrusão de escoadas lávicas, ocorrida aquando desta erupção, responsável por este levantamento do fundo oceânico. Mediu ainda a temperatura da água do mar, registando 21,5 graus. Apesar da erupção ter terminado há muitas semanas, ainda era possível observar neste local a libertação de gás, de forma muito irregular, a cada 4 ou 5 minutos, num raio de 10 metros. Mesmo com o mar calmo como estava, Fouqué teve grandes problemas em conseguir recolher uma amostra desse gás, devido à dificuldade que havia em deslocar de um lado para outro um funil que, mergulhado na água, tentava apanhar as bolhas dos gases vulcânicos. Depois de alguns desaires e após 5 horas, conseguiu recolher no interior de um tubo 5 cm3 de gás que levou para analisar. Depois de passar o dia 22 todo no mar, junto à costa da Serreta, regressaram a Angra, onde chegaram na madrugada do dia 23, antes do amanhecer. 19
Fouqué deslocou-se aos Açores com o propósito de recolher gases da erupção da Serreta, aproveitando para conhecer melhor a região e os seus fenómenos naturais. Nesse mesmo dia 22 de setembro, dois dias após a sua chegada à ilha Terceira, Fouqué terá achado que nada mais lhe restava fazer de importante. Isso mesmo é comprovado quando, em carta escrita nesse dia ao seu antigo professor, o geólogo Charles Joseph Sainte Claire-Deville, com quem partilhava um interesse especial pela análise de gases vulcânicos, se queixa da raridade com que passavam os barcos pela ilha, obrigando-o a ficar mais tempo “do que aquilo que pretendia”. 20
Não obstante as primeiras impressões de Fouqué, este cientista acabaria por recolher importante informação sobre estas ilhas, tendo voltado à região outras vezes, e deixando escritas preciosas descrições geológicas sobre as mesmas.

1 Já a 27 de julho de 1867 o jornal O Angrense noticiava que: “No vapor Açoriano estavam para vir dois naturalistas franceses, mandados pela Academia Imperial de Paris, para estudarem os fenómenos vulcânicos, que ultimamente tiveram lugar próximo a esta ilha. Um deles é o mr. Saint Clair, nome muito conhecido no mundo científico. É provável que deixassem de vir, e já não venham, por ter acabado a explosão.” Estava enganado o jornal porque efetivamente o geólogo Charles Joseph Sainte-Claire Deville e o seu companheiro de viagem o astrólogo Pierre Jules César Janssen chegaram à ilha Terceira no mês seguinte, tendo-se demorado de 18 a 26 de agosto.
2 Em O Angrense, de 2 de outubro de 1867, vem: “Acha-se entre nós mr. Fouqué, sábio naturalista francês, e que vem fazer aprofundados estudos às nossas ilhas. Às municipalidades cumpre fornecer a mr. Fouqué toda a facilidade para levar a cabo os seus estudos. E para desejar que a digna Câmara de Angra peça a mr. Fouqué para que analise as águas da Serreta e Silveira, facilitando-lhe o acesso a esses lugares.”
3 Charles Joseph Sainte-Claire Deville & Janssen “Récit de l’éruption sous-marine qui a eu lieu, le Ier juin 1867, entre les îles de Terceira et de Graciosa, aux Açores” - C. R. Acad. Sci. de Paris, t. LXV, pp. 662-668, julho-dezembro de 1867.
4 O Angrense, de 31 de maio de 1867, Supl. Ao nº 1418
5 O Angrense, de 31 de maio de 1867, Supl. Ao nº 1418
6 O Angrense, de 31 de maio de 1867, Supl. Ao nº 1418
7 O Angrense, de 31 de maio de 1867, Supl. Ao nº 1418
8 O Angrense, de 4 de julho de 1867
9 O Angrense, de 4 de julho de 1867
10 ANDRADE, J. (1891). Topographia ou Descripção Phisica, Politica, Civil, Ecclesiastica e Histórica da Ilha Terceira dos Açores. Angra do Heroísmo, p. 17-18.
11 A União, de 16 de junho de 1894
12 Comunicação ao Governo, registada no Diário Oficial (ou Diário de Lisboa) nº 155, de 15 de julho de 1867, transcrita em Notícia do Archipelago dos Açores e do que há mais importante na sua historia natural, Accurcio Garcia Ramos, 1869, pp. 51-54.
13 MACEDO, A. (1871). História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta. Edição da DRAC, Angra do Heroísmo, de 1981. pp. 331, 624-626.
14 Suplemento de O Angrense, de 8 de junho de 1867
15 Fouqué, F. (1873). Voyages géologiques aux Açores. Revue des Deux Mondes. XLIII eme année, seconde periode, T. CIII: 40-65.
16 Carta de F. Fouqué a Charles Deville, num extrato traduzido e publicado com o título “As observações de F. Fouqué sobre o vulcanismo dos Açores” no Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Vol. 4 – nos 2-3, 1966-1967, p. 27
17 Fouqué licenciou-se em Ciências (1849-1851) pela École Normale Supérieure onde foi preparador no laboratório de História Natural, em 1853. Em 1858 tornou-se Doutor em Medicina e em 1861, com uma visita ao Vesúvio, inicia as primeiras expedições na área da vulcanologia, uma ciência que abraçou com paixão. Em 1865 vai até à Sicília. Em 1866 torna-se Doutor em Ciências Físicas e nesse mesmo ano parte em missão para Santorini. Em 1867 faz a primeira de duas visitas aos Açores.
18 O Angrense, de 2 de outubro de 1867
19 Fouqué, F., 1867. Sur les phénomènes volcaniques observés à Terceira (îles Açores). Première Lettre à M. Ch. Sainte-Claire Deville (Angra, 20 de outubro 1867).
20 Fouqué, F., 1867. Sur le gaz qui se dégagent en mer sur le lieu de l’érupcion qui s’est manifestée aux Açores le 1er Juin 1867 - C.R. Acad. Sc., T. LXV: 674-675.