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O ilhéu da Praia, localizado a cerca de 1,5 Km da orla costeira da vila da Praia, na ilha Graciosa, destaca-se dos seus pares pelas importantes e diversificadas colónias de aves marinhas que nele nidificam e variados endemismos açorianos, no que se refere à sua cobertura vegetal, que lhe confere uma posição de destaque sobre os demais ilhéus do arquipélago açoriano.

Com apenas 11 ha, 1,6 km de perímetro e 51 m de altura máxima, esta pequena ilhota de natureza basáltica é procurada por algumas das principais espécies oceânicas que procuram os Açores para nidificar e das quais se destacam o Cagarro (Calonectris diomedea borealis), o Garajau-rosado (Sterna dougallii), o Garajau-comum (Sterna hirundo), o Frulho (Puffinus baroli baroli) e o Paínho-da-Madeira (Oceanodroma castro), entre outras espécies protegidas internacionalmente que ocorrem e nidificam ocasionalmente.

Tão singular fauna tem fomentado o seu estudo e acompanhamento por parte da comunidade científica que redundou mesmo na descoberta de uma nova espécie de ave marinha para a ciência, um endemismo local denominado Paínho-de-Monteiro (Oceanodroma monteiroi) que só nidifica nos ilhéus da Graciosa.

No entanto, segundo consta no livro sexto das “Saudades da Terra”, de Gaspar Frutuoso, outro raro e vulnerável paínho povoou no passado o ilhéu da Praia. Apelidado de Calcamar ou Paínho-de-ventre-branco a Pelagodroma marina não procria actualmente nos Açores mas, através das crónicas de Gaspar Frutuoso, podemos inferir que em tempos idos também nidificou nestas ilhas. Ao contrário de outras aves marinhas, como é o caso das Cagarras, o Calcamar não nidifica em buracos rochosos, mas antes escava os seus ninhos no solo e teria encontrado no ilhéu da Praia, habitat adequado uma vez que este ilhéu possui uma vasta área de terra arável onde é possível escavar buracos.

Outro inquilino que se distingue é o Garajau-rosado (Sterna dougallii), cuja população açoriana representava em 2009 cerca de 48 por centro da população que passou pelo território europeu e que, em 2006, o ilhéu da Praia acolheu 44 por centro da população registada nos Açores.

Classificado em 2008 como Reserva Natural, no âmbito do Parque Natural da Ilha Graciosa, ostentava já então o estatuto de Zona de Protecção Especial – Rede Natura 2000, e de Important Bird Area (IBA PT060 “Ilhéu da Praia”) pela BirdLife International/SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

Com a remoção definitiva de coelhos nos finais do século passado e a sequente recuperação do seu coberto vegetal, designadamente com a reintrodução de exemplares da flora endémica dos Açores, o ilhéu da Praia apresenta hoje uma flora coerente com o seu estatuto e de qual se destaca um invulgar prado costeiro com Vidália (Azorina vidalii), única espécie do género monoespecífico Azorina no Mundo.

Coabitando com a Vidália, podemos hoje igualmente descobrir no ilhéu da Praia outros endemismos da flora açoriana como são a Salsa-burra (Daucus carota ssp. azoricus), o Bracel-da-rocha (Festuca petraea), a Urze (Erica azorica), a Spergularia azorica a Carex vulcani e o Visco (Tolpis succulenta), este último um endemismo macaronésico.

Para além das aves marinhas que regularmente procuram o ilhéu da Praia existem outros vertebrados residentes como algumas aves terrestres e a Lagartixa-da-Madeira (Lacerta dugesii) que, como o nome comum sugere, são descendentes de animais originários da Madeira, de onde é endémica, e que foram introduzidos acidentalmente nos Açores durante o século XIX por navios que faziam a rota entre os dois arquipélagos.

O ilhéu da Praia é assim um excelente exemplo de um santuário para as aves marinhas do Oceano Atlântico pois, para além do restauro dos habitats naturais de nidificação/reprodução ter devolvido as condições pristinas ao ilhéu, a ausência de predadores, designadamente mamíferos exóticos, garante às diferentes colónias de aves que o buscam condições impares para a conservação e recuperação das suas populações.

Pedro Raposo – Biólogo
Parque Natural da Ilha Graciosa

Governo dos Açores